segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Dia do Idoso


   






“A gente envelhece se quiser, porque a gente tem o poder de ficar jovem”.
(Ir. Maria da Assunção Esmeraldo, OSB)


CRÔNICA  MORTUÁRIA
 DA  IRMà MARIA  DA  ASSUNÇÃO  ESMERALDO, OSB
                         Y - 11/04/1925                                                       U - 28/04/2016

       Felizes os convidados para o Banquete das Núpcias do Cordeiro”
          (Ap 19, 9) 

           Aos onze de abril de 1925, sábado de Aleluia, nasceu, na cidade de Visconde do Rio Branco, Minas Gerais, Maria Theresinha Esmeraldo.
          Seu pai, Júlio Esmeraldo da Silva, cearense, de Crato, homem de grande cultura, tinha em seu “curriculum vitae”, a formação musical; era maestro e compositor. Neste dia, estava ele cantando o grande Aleluia da Missa do Sábado Santo, quando foram avisar-lhe que nasceu a criança e ele perguntou: menina ou menino?  Ao saber que era menina ribombou na igreja um estrondoso Aleluia, pois já tinha dois homens. Era o ano da canonização de Sta. Teresinha. Ele queria que se chamasse Maria, mas a mãe, Da. Laudelina Barandier Esmeraldo, conhecida como Da. Linoca, que tinha tido partos difíceis, fizera promessa de, caso fosse menina, chamar-se-ia Theresinha. Por isto, ficou com os dois nomes. Os irmãos que a precederam eram José e Júlio. Depois nasceram Santana, Antônio e Pedro. Nasceu e cresceu em Visconde do Rio Branco, local de usinas de açúcar: talvez por isto, era uma “formiga”, muito amiga do que é doce. Foi batizada com três dias, na terça-feira da Oitava de Páscoa e crismada com doze anos. Fez o curso primário do Grupo Escolar, onde sua mãe era Diretora e o normal na Escola Normal, onde o pai era Diretor.
                        Por ocasião do Natal, costumava fazer parte de um grupo folclórico de crianças que cantavam as tradicionais “Pastorinhas”, indo de casa em casa, visitando os presépios. As crianças se vestiam a caráter, e ela sempre era o anjo. Depois que entrou para a Companhia da Virgem, cantava com frequência as Pastorinhas, no Tempo do Natal. Terminado o curso normal, com 15 anos, começou a ensinar no internato de uma amiga. Depois fez o curso de comércio. Formou-se em contadora, datilógrafa e costura. Tudo isto na cidade natal. O pai dava uma educação muito rigorosa e mantinha as meninas muito presas; só saíam acompanhadas, para tudo, inclusive para a escola.
            Estando o Júlio em Belo Horizonte, enviou para Theresinha o anúncio de uma bolsa de estudo de Serviço Social, promovida pelo SESI. O pai perguntou-lhe sobre a carta do Júlio, e sabendo do assunto perguntou também: “Você não quer ir?” Ela ficou estupefata e argumentou que faltavam apenas dez dias para o concurso, e que na proposta não havia programa de estudos, apenas matérias; não se sentia preparada. Ele insistiu afirmando que iria passar. E ela foi. Foi “para voltar”, é claro. Mas nunca mais voltou. Os caminhos foram se abrindo para ela. Eram 123 candidatas e ela tirou o 1° lugar. Telegrafou para o pai, que foi conversar com os amigos, na pracinha, ostentando o telegrama. Logo começou ela a fazer estágio e continuou a trabalhar no Serviço social, pois, com a bolsa, assinou contrato para trabalhar 5 anos.  Depois foi enviada a Juiz de Fora, para lá assumir a chefia do Serviço Social - seção constituída quase toda de homens - e a administração de todos os serviços, cujo administrador acabava de deixar o cargo.
Acontece que desde os 15 anos se sentia chamada por Deus para a Vida Religiosa. Quando, tendo mais ou menos 23 anos, foi consultar um sacerdote, que conhecera num retiro em Rio Branco, e ele a aconselhou a aceitar o serviço por 5 anos, pois isto seria muito bom para a vida futura.
            Entrando, certa vez, numa livraria, viu um livro: “Madre Francisca de Jesus” – Fundadora da Companhia da Virgem – de Reginaldo Garrigou Lagrange, OP; interessou-se por ele, comprou-o e o leu. Daí nasceu o chamado para a Companhia da Virgem. Em dezembro, nas últimas férias que foi em casa, falou com a mãe e o pai sobre sua vocação. Comunicou-lhes que a 26 de janeiro faria sua defesa de tese e desejava entrar para a Companhia da Virgem a 2 de fevereiro, data de seu compromisso de Filha de Maria. Não terminou os 5 anos do contrato, porque o chefe, sabendo de sua vocação, achou muito justo, e consentiu em rescindir o contrato.
            O pai, a mãe, Santana e uma prima a levaram a Petrópolis, ali chegando no dia 1º de fevereiro. No dia seguinte, foi levada ao Rio, por uma amiga, para se despedir do mar. No dia 2 de fevereiro só entrou na hora do jantar, porque os pais quiseram que esperasse uns tios, que viriam do Rio e que chegaram muito tarde. O jantar foi com velas na mesa, não por ser dia de Nossa Senhora das Candeias, mas por motivo de racionamento de energia.
            Seu Postulado começou, pois, a 2 de fevereiro de 1952. O Noviciado, quando recebeu o nome de Irmã Maria da Assunção, OSB, a 6 de agosto de 1952, Profissão Temporária a 14 de agosto de 1953 e Profissão Perpétua, a 14 de agosto de 1956. Durante seu período de formação, Madre Inês, então Priora da Companhia da Virgem, a fez passar por estágio em todos os ofícios da Casa, sem exceção. Nossa irmã Assunção, assim a chamávamos, era, como se costuma dizer, “pau para toda obra”, muito habilidosa. Exerceu vários ofícios: cozinha, celeireira, enfermeira, roupeira, responsável pela limpeza, lavanderia, portaria, organista, fabricação de bricelets, tipografia, mestra de coro, correspondência, tradução. Por fim, teve também os cargos de sub-prioresa e prioresa. Quando da união com a Ordem de São Bento, ficando o mosteiro dependente da Abadia de Nossa senhora das Graças, foi a primeira Prioresa, e, com a vinda de Madre Maria José Gontijo, OSB como Prioresa, nomeada pela Madre Abadessa Luzia Ribeiro de Oliveira, OSB, - da Abadia de Nossa Senhora das Graças, em Belo Horizonte, da qual nosso Mosteiro era dependente -, ficou sendo sub-prioresa, e foi também a Mestra dos Oblatos e auxiliar da Mestra de Noviças.
                        Destacou-se como alguém sempre disponível, prestativa, atuante. E, sendo muito inteligente e mesmo bastante culta, foi capaz de prestar um bom serviço à Comunidade e à Congregação. Era muito exigente, severa consigo mesma, e contava com todas como se também o fossem; às vezes pedia demais às outras. Mas, delicada e paciente com as deficiências e incompetências das Irmãs. Nos serviços que prestava, mostrava-se um tanto perfeccionista, buscando sempre o melhor, tanto nos trabalhos internos da clausura, como nas obras para vender ou apresentar na portaria. Possuía gosto refinado no tocante à arte. Especialmente à música e pintura sacra. Tinha umas atitudes que demonstravam não ter respeito humano; certamente o fazia por humildade; percebia-se que algumas das Irmãs não aprovavam, mas nenhuma Superiora a proibia. Por exemplo: havia na Companhia da Virgem uma penitência para quem deixasse algum objeto fora do lugar: colocar amarrado em cima da cabeça o tal objeto, fosse um avental bem dobrado, ou outros que se prestassem a isto. Outra penitência em uso era pendurar no pescoço um pedaço de alguma coisa, copo ou louça, que havia quebrado. E ela circulava com o objeto na cabeça ou no pescoço, por todo o terreno, onde se encontravam o jardineiro, algum outro operário ou a moça que ajudava na lavanderia. Outra coisa que a caracterizava bem era o amor à verdade. E isto a levava às vezes a ser um tanto imprudente. Quando, em 1993, nossa Madre Abadessa Eugênia Teixeira, OSB – do Mosteiro da Virgem, em Petrópolis -  aceitou a fundação do Mosteiro da Virgem de Guadalupe, em São Mateus, ela foi nomeada Prioresa, e para cá veio com mais sete Irmãs, no dia 17 de fevereiro de 1994. Implantar a vida monástica em terras de Missão, berço da Teologia da Libertação, onde para muitos éramos vistas como inúteis, foi para ela trabalho árduo e sofrido, que enfrentou com muita firmeza e suavidade. Dom Aldo Gerna, Bispo da diocese naquela ocasião, sempre apoiou a Fundação e os dois se tornaram bons amigos. Em 2003, Irmã Assunção celebrou seu Jubileu de Ouro, com a participação de muitos amigos e conhecidos; então, já começava a manifestar sinais de “alzheimer”, e começou também a ter atitudes estranhas, como por exemplo, reunia a comunidade mais de uma vez por dia, fazendo as Irmãs pararem seus serviços, para repetir sempre as mesmas coisas; ocasionando mal-estar nos relacionamentos. Em 2004, a situação tornou-se insustentável, tanto que ela mesma chegou a dizer: “Estou de um jeito que nem eu me aguento”. Em junho deste mesmo ano, a Abadessa Madre Maria Auxiliadora da Silva Canuto, OSB destituiu-a do cargo e nomeou Prioresa Ir. Vera Lucia Silva, OSB, então Sub-prioresa.   Nesta época, fazia tratamento com um médico no Rio de Janeiro – gostava muito de viajar – e ele percebeu que ela já não tinha condições de viajar sozinha, e a encaminhou para uma médica em Vitória. Com os medicamentos receitados pela médica de Vitória, o quadro foi-se estabilizando. Tinha vida normal, participando de todos os atos comunitários.
           No dia 12 de janeiro de 2010 fazia, como de costume, sua caminhada no quintal, tendo por perto uma funcionária do mosteiro, quando – não sabemos se se desequilibrou ou se teve uma tonteira, caiu batendo violentamente a cabeça no chão e fazendo um corte profundo na fronte, o que provocou grande coágulo; deveria submeter-se a uma cirurgia, o que seria perigoso devido à sua idade avançada; porém, milagrosamente o coágulo diminuiu 90 por cento em menos de 24 horas. O médico, ateu, disse: “A oração de vocês é muito forte; trabalho há mais de 27 anos como neurocirurgião e nunca vi uma coisa dessa”. Após esse acidente, a progressão da doença foi sentida por todas, e ela passou boa parte dos dois anos seguintes, de casa para o hospital e do hospital para casa; ora infecção urinária, ora pneumonia. Quando via nosso abatimento junto a ela, no hospital, dizia: “Estou com 90 anos? Estou nova para morrer. Não vai ser agora.” Uma vez, estando Pe. Luiz Fernando em visita ao mosteiro, ela lhe disse: “Elas não me deixam morrer”. Os três anos que precederam sua páscoa, seguindo as orientações de sua geriatra, Dra. Regina Mesquita e do urologista Dr. Dionísio, passamos a trata-la no mosteiro; combatíamos as infecções fazendo-a ingerir muita água. Esse período foi de certa tranquilidade. Tínhamos que estar atentas aos seus movimentos de humor, pois não sabia expressar o que sentia. Quando percebíamos uma certa apatia, olhar inexpressivo, apelávamos para o laboratório, pois era, inevitavelmente, infecção. Apesar da enfermidade, era sempre muito gentil, alegre, gostava de cantar. A partir de novembro de 2015, as infecções já não cediam facilmente com o tratamento até então utilizado: muita água e antibiótico. A colônia já estava ficando mais forte, porque a mente não ajudava a esvaziar a bexiga; passamos a utilizar a sonda de alívio, 4 vezes ao dia. Contudo, não foi preciso interna-la nesse período, mas percebíamos que seu físico já não estava suportando; em momentos de lucidez dizia que queria morrer, e até se fazia de morta muitas vezes.
            No dia 11 de abril celebrou seus 91 anos. Alguns oblatos e amigos vieram cumprimenta-la e ela se mostrou alegre e agradecida. No entardecer do dia dezenove começou a se sentir mal: a pressão foi a 23, febre alta e convulsão; quando aconteceu a segunda convulsão, a médica nos aconselhou a interna-la. Nos exames de laboratório não constava infecção, mas uma excessiva queda de sódio e potássio; o procedimento imediato seria a reposição, e depois de dois dias estaria liberada. Porém a condição do hospital era o grande perigo: H1NI, Zica, dengue, lotação esgotada, pacientes em maca nos corredores (inclusive, nossa Irmã passou a primeira noite no corredor), todos de máscara. No dia seguinte, já na enfermaria, teve duas ou três convulsões seguidas; segundo os exames, não havia infecção; depois de dois dias sem tomar água, começou a infecção urinária; não conseguia comer, teve uma convulsão muito forte de madrugada e os remédios intravenosos não funcionavam; após 30 minutos, o médico aplicou uma injeção intramuscular e só uns 20 minutos depois ela foi se acalmando. A febre continuava muito alta, sem água, sem alimentação e sem os seus remédios, seu estado foi-se agravando. No dia seguinte, amanheceu com sintomas de pneumonia; o médico do hospital que a atendia não deu importância. A preocupação de nossa Prioresa, Madre Vera Lúcia Silva, OSB, neste momento, era tirá-la do hospital o mais rapidamente possível, o que não foi fácil; os médicos nossos amigos ajudaram a conseguir a transferência, para continuar o tratamento em casa, pois naquelas condições, ela teria apenas mais dois dias de vida. No mosteiro, reuniu-se uma equipe médica: cardiologista, geriatra, angiologista, radiologista, dois fisioterapeutas especializados em UTI, e o laboratório estava disponível a qualquer hora.   Esses médicos montaram uma UTI em casa, com toda a aparelhagem necessária, até para pequenas cirurgias, e aparelho para ultrassom portátil. Todo o medicamento foi liberado pelo hospital. Em casa, nossa Irmã teve uma aparente melhora, mas continuava sem alimentação. Quando o médico colocou a sonda gástrica, ficou sem ar, apesar de estar constantemente no oxigênio; foi então retirada a sonda e no dia seguinte, com a ajuda do ultrassom, foi recolocada e ela começou a tomar água e alimento. No dia seguinte, entrou em coma. A infecção agora estava no sangue. A médica geriatra ficou a manhã toda com ela, e foi constatando a paralização dos órgãos. Na saída nos disse: “Ela não passa de hoje.” E assim foi. Após as Vésperas, depois de duas paradas cardíacas, com a Comunidade toda rezando ao seu lado, às 18:17 h., nossa Irmã foi ao encontro do Esposo. Agora, sim, ela é plenamente feliz. Suas exéquias, celebradas solenemente, como exige o Tempo Pascal, teve como celebrante nosso Bispo, Dom Paulo D’el Bó, e concelebrantes: o Bispo emérito Dom Aldo Gerna, Mons. Emílio Gonzalez Escalada. Pe. Aldir Loss, Pe. Fabiano Marchezine e Pe. Enizael. Confortou-nos a presença da Madre Abadessa Maria Auxiliadora da Silva Canuto, OSB e dos familiares da nossa irmã: Pedro Esmeraldo, seu irmão, acompanhado dos filhos André e Marcos com a esposa Sônia. Nossa pequena igreja estava repleta dos amigos e dos muitos filhos espirituais que ela deixou. Muitas pessoas ficaram admiradas, dizendo nunca ter participado de celebração fúnebre onde não se sentia tristeza e sim uma grande paz e certa alegria espiritual. Nossa Irmã nasceu no Aleluia da Vigília Pascal e voltou para o Pai no Tempo Pascal. Tinha em si o vigor da juventude, nos seus 91 anos. Menos de um mês antes de falecer disse: “a gente envelhece se quiser, porque a gente tem o poder de ficar jovem”.
           “É Ele quem sacia teus anos de bens e, como a da águia, tua juventude se renova” (Sl 103, 5).  
 E assim, com a alma renovada, aos 91 anos de idade, voou para as núpcias eternas!

(a cronista)




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